Sessão Científica - SOTIERJ - maio de 2009


Papel de Emergências e Unidades de Tratamento Intensiva em Epidemias e Pandemias  - exemplo da gripe influenza A

Nesta sessão foram abordados o assunto do momento: a possibilidade de pandemia pelo vírus influenza A H1N1. Participaram representantes de gestão de unidades, intensivistas (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos) e representantes de CCIH e da Secretaria Municipal de Saúde.

João Andrade (Hospital São Miguel e INTO; diretoria estendida de infecções/sespe da SOTIERJ) presidiu a sessão. Ele abriu com uma revisão de pandemias ocorridas desde a idade antiga, com ocorrência frequente de peste bubônica, cólera, gripe influenza e febre tifóide. Pandemias chegaram a dizimar até metade da população de algumas regiões até a idade moderna (início do século XX). Havia muito preconceito aos doentes, que eram isolados ou expulsos de casa.

Patricia Yvonne (CCIH - Adler consultoria e UERJ) foi a segunda palestrante. Ela abordou de modo completo e sucinto todas nuances de isolamento de paciente com doença contagiosa no hospital. Deve-se ter muita atenção com a arquitetura das unidades (que tem tetos baixos e pouca entrada de luz atualmente), construção de isolamentos respiratórios (que precisam fluxo de ar para fora do hospital e material adequado para uso dos profissionais) e manipulação de dejetos dos pacientes (devem ser identificados em sacos especiais e serem tratados em unidades de gerenciamento de resíduos; aparelhos devem ser desinfectados e as superfícies do leito devem ser limpas adequadamente). Ela ainda comentou sobre os sinais e sintomas da gripe A H1N1, que é igual ao de gripe comum, e por isso é fundamental pesquisar a ocorrência de viagem a países acometidos da doença.

Haroldo Falcão (Hospital Quinta D´Or e da Polícia Militar-RJ) falou a seguir. Seu tema foi abordagem de aspectos bioéticos relacionados a isolamentos e quarentenas. Na idade antiga, até Moisés expulsava leprosos da comunidade para não haver contaminação de outras pessoas próximas. A palavra era do comandante/governante, que decidia o que deveria ser feito de modo unilateral. A bioética trouxe da Filosofia aspectos práticos como multidisciplinaridade e metodologias diversas. A abordagem mais comum é a baseada em princípios, pois fica mais prático e didático para lidar com dilemas. Lembrou que a ética é apenas um balisamento do caminho para seguir, e não uma obrigatoriedade de obediência. Em 2003, a SARS acometeu pacientes e profissionais no Canadá, matando muita gente. Esta infecção foi um exemplo para evitarmos novas vítimas nesta possível epidemia. O uso de isolamento/quarentena é mais comum nestas situações. No entanto, ocorrem dilemas bioéticos nesta situação, já que nem mesmo existe a comprovação de eficácia nesta prática. A quarentena pode beneficiar os contatos da pessoa doente, já que evita contato direto. Mas parece não haver garantia de não-maleficiência, já que os pacientes podem ser menos assistidos, principalmente se não houver condições ideais de proteção à equipe de saúde. Parece haver aderência a prática de quarentena, principalmente quando ela é feita de maneira voluntária (pois a coerção para ficar isolado pode reduzir a aceitação de isolamento - Blendon 2006). O Estado tem a obrigação do dever de cuidar e oferecer as melhores condições para o tratamento do paciente. Mas também deve garantir direitos individuais dos pacientes, como se livrar temporariamente de obrigações habituais (como pagar contas) e receber salários normalmente durante a quarentena. Outro dilema é a privacidade de informação pessoal e a necessidade de conhecimento público da situação de doentes afetados durante epidemias/pandemias.

Por fim, José Cerbino (Superintendente de Vigilância e Saúde da SMS, RJ; Infectologista do IPEC-FIOCRUZ) comentou a situação dos pacientes suspeitos e confirmados até agora, que é muito bom e sem evolução para maior gravidade. A letalidade por gripe A nos EUA não é maior que a gripe comum, que é sazonal e acompanhada pelo CDC periodicamente. Esclareceu que a quarentena e internação em hospitais de referência é voluntária. Não se sabe bem do que pacientes no México e EUA morreram (muitos parecem ter morrido de penumonias bacterianas por superinfecções). E falou também da complicada questão (também bioética) da transferência de pacientes de hospitais e clínicas privadas para hospitais de referência (que são do SUS). A SMS consegue monitorizar adequadamente os poucos casos suspeitos e confirmados em hospitais públicos, que voluntariamente ofereceram leitos para receber os pacientes. A partir de um possível alastramento local da doença, não há lógica em continuar a utilização de hospitais de referência. Basta esperar, contendo os casos isolados que ocorrem localmente.

PS - a pré-sessão foi realizada com o tema "Como elaborar temas livres para congressos". Um guia está postado em 15 de maio de 2009 em artigoscomentados.blogspot.com.

 


     
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